segunda-feira, 14 de maio de 2012

Culto ao tempo

"Tempo é dinheiro" 
Benjamin Franklin

A linha de produção se tornou a senhora dos homens. Antes de viver é preferível produzir, produzir é viver, esta é a máxima da sociedade das engrenagens, por mais que seja dito o contrário. A linha de montagem se tornou tão importante que passou a dispensar o corpo físico das esteiras e botões, não vemos-na, mas ela está lá, passou a habitar a sociedade como um todo.
Antes que se atribua a culpa ao "indivíduo", note-se que muitos já nasceram na linha e foram criados nela, por isso seu ritmo é tomado como uma lei da natureza. Cada vez mais o mundo fica parecido com uma grande fábrica em que o alarme do início de expediente é substituído pelo ruído dos despertadores e chamadas de telefones móveis. Até mesmo as horas de lazer, que pode se supor, são períodos de descanso da labuta, tornam-se horas em que o indivíduo exausto é quase que impelido ao divertimento a fim de "aproveitar a vida", por mais que esteja carcomido pela exaustão do dia a dia, o aconchego das drogas, lícitas ou não, passa a ser necessidade. A linha de montagem habita as baladas noturnas, verdadeiras linhas de produção do pseudo-prazer em que cada um joga-se às carnes de que sente saudade devido à convivência excessiva com os plásticos e metais.
Corroído pela fábrica de miséria, o indivíduo não pode ver outra saída a não ser isolar-se em suas bolhas de vivência. Estar em grupo é arriscado, conviver é difícil demais, demanda tempo, e tempo é dinheiro. A convivência se torna um esporte em que estar com o outro é sinônimo de sair a um encontro qualquer, numa cidade qualquer, para um show qualquer, ou em um cinema qualquer, para após isto postar as lembranças numa rede social qualquer a fim de parecer feliz e quem sabe um dia lembrar que esteve com alguém sem precisar de um remédio para a memória.
Meditar é pecado. Para que respostas? Quanto mais perguntas! Venha, a liquidação acaba amanhã! Temos aqui no merdoshop todas as soluções para seus problemas: com esse lava-jato-turbo2000 com bactericida titânico anti-rugas você terá mais tempo para comer miojo assistindo seu programa preferido à tarde arrotando no sofá! E o melhor de tudo: irá causar inveja no vizinho que não lava a caranga velha desde o mês passado...
Não se contenta com estas besteiras materiais da vida?  Venha para a feira de livros da cul-pop-pós-art-moderna edição 2012! Aqui você encontrará os melhores autores e irá "adquirir um pouco de cultura", assim poderá visitar os melhores cafés e puxar conversas sobre autores famosos que ninguém conhece com qualquer um que estiver vestindo uma boina ou cachecol no centro da cidade. De quebra poderá frequentar teatros com as peças daquele artista que você cansou de ver na novela, vomitar risadas em um show de comédia instantânea (enlatada?) e participar de papos cabeça online!
Pensar? Imaginar como poderia ser diferente? Você está ficando maluco ou o quê? Não perca tempo seu comunista de merda, hippie fedido, é assim e sempre foi assim.

Que a loucura nos proteja dos ponteiros do relógio.

Sinal de vida

Esse blog não acabou. Só está dando um tempo...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Somos para o outro

Quais os desafios da vida? O indivíduo procura vencer na vida sem ao menos saber o que isso significa. Será que só viverá feliz se assistir os "100 filmes que devem ser assistidos antes de morrer"? Ou quando realizar as "30 viagens que devem ser feitas antes de morrer"? Quando comprar o carro dos sonhos? Quando transar com mais de cem pessoas? Depois que usar todos os tipos de drogas que estão ao alcance?
Nasce o humano. Por sorte estará cercado de pessoas com quem conviverá. Destas irá adquirir hábitos, costumes e valores. Com o tempo, irá desenvolver seu próprio pensamento e influenciar o pensamento e a vida de outras pessoas enquanto continua a ser influenciado, isto, até o dia de sua morte.
Todas as lembranças que esse indivíduo tem das experiências que vivenciou vão com ele. As histórias contadas pela mãe, as travessuras com os amigos de infância, os desafios superados, os filmes assistidos, as viagens, os carros, as transas, as drogas etc. Então, assim sendo, o indivíduo parece ser nada mais que algo passageiro, portanto, irrisório diante da grandiosidade do tempo. Só isso mesmo?
Ao considerar que o ser humano só existe para si mesmo, a fim de garantir seus próprios prazeres, pode ser dito que sim. Porém, é de lembrar-se que a existência finita deste ser é marcada por influências que este exerce. Dessa forma, pode ser dito que de algum modo, o indivíduo, ou pelo menos algo deste, continua existindo, não em si mesmo, mas sim, nos que conviveram com ele e nos que conviverão com estes.
O que é mais importante: a efemeridade do prazer individual ou a continuidade do legado deixado? Há sentido em justificar um modo de vida baseado na busca incessante por prazeres carnais com o fato de que esta um dia irá acabar?  Esse mesmo motivo não poderia ser utilizado para justificar uma vida onde há indiferença perante os prazeres sensuais?
São mais perguntas do que respostas. Mas, parece claro que não há propósito para afirmar que uma busca pelo prazer seja melhor, ou mais vantajosa, que outro estilo de vida. Também não há como afirmar, com base no que foi dito, que se o ser deixou de assistir aqueles filmes, virar aqueles copos, viver aqueles momentos, ele teve uma vida inferior.
A proposta é que vivemos para o outro. O que irá para o túmulo se transformará em pó e as lembranças da carne se perdem junto com ela. Já a palavra, o pensamento e o convívio, ficam com aqueles que estiveram com quem se foi, e estas lembranças serão transmitidas de indivíduo para indivíduo, de tempos em tempos, transformando-se, diluindo e fluindo no que estará por vir.
Isso é melhor ou pior? Não se sabe nem mesmo se o que é melhor ou pior existe.






sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Uma SOPA verdadeiramente amarga

   Na era do pão e circo é só faltar pão que lá vem a SOPA!
   Era uma vez um mundo onde todos viviam felizes. O progresso (em que direção?) trouxe felicidade a todos, as guerras acabaram, as prateleiras ficaram lotadas, e o calor das lareiras no frio e o frio do luar ao céu aberto no calor foram trocados pela televisão, todos tinham televisão. As famílias se divertiam, pois agora poderiam comprar tudo, afinal, o que não faltava era dinheiro, essa substância misteriosa que alguns dizem ter o incrível poder de movimentar o mundo, poder que antes era atribuído aos seres mitológicos. Essa criatura fantasmagórica e poderosa encarnada em papel ficou tão forte que passou a ser necessária para adquirir não apenas bens palpáveis, mas também ideias, pensamentos, cultura.
   Então, não demorou muito para surgir uma coisa chamada indústria cultural. As cantigas cantadas em rodas com as pessoas mais próximas foram substituídas por produções embaladas que só podiam ser compartilhadas por quem fosse autorizado. A cantiga que é utilizada para comemorar aniversário chamada "Happy birthday to you" já tem seus direitos autorais garantidos através da copyright, e assim seguia o mundo. Os homens da sagrada família, guiados pelo sagrado trabalho, ganhando o sagrado dinheiro, vivendo sagradamente numa terra sagrada. E os homens sagrados (os "homens de bem"), aqueles que deixam o mundo nas mãos da sagrada "mão invisível", produziam cada vez mais sagrado dinheiro ficando cada vez mais sagrados e enchendo o público de espetáculos sagrados vindos de uma entidade santa chamada mídia. Esses homens de "benz", donos dos direitos de propriedade sagrada, os donos do pedaço, privatizaram tudo, sagradamente, e passaram a vender os direitos sagrados do espetáculo sagrado.
   E nesse mundo purificado e límpido eis que surge a INTERNET. Essa entidade, fruto da sagrada guerra travada em nome da sagrada nação do destino manifesto, foi posta ao uso da sociedade civil. Grandes monopólios de tecnologia lucraram uma bolada vendendo os utensílios necessários para poder interagir nessa rede. Entretanto, com o tempo foi percebido que essa entidade ainda não era loteada e não havia nenhuma bandeira com o monopólio legítimo da força nela, afinal, ainda não haviam inventado as bombardas virtuais. Com isso, os primeiros desbravadores eram pessoas comuns, mas, com certa aptidão para desbravar o campo virtual. Os hackers, hoje demonizados pela sagrada mídia, literalmente inventaram a INTERNET.
   Assim, surgiu um local onde governos e corporações não tinham total controle. Com mais pessoas acessando a rede mundial de computadores, mais informação era compartilhada livremente e gratuitamente. Tudo isso preocupou a sagrada indústria cultural, pois, se o seu ganha pão estava sendo compartilhado de graça como poderia continuar lucrando?
   Não tardou muito até inventarem uma fórmula mágica: uma SOPA realmente amarga. Está prestes a ser servida a todos, dizem que é adocicada para quem faz parte da sagrada indústria cultural e amarga para os maléficos piratas da internet.
   Neste mundo as coisas ficam cada vez mais obscuras. Um dia, como disse Rousseau, alguém resolveu cercar um lote de terra e dizer: "-É meu". Assim foi iniciada a propriedade privada. Os lotes de terra são limitados, se um tem o outro não tem. Hoje, o que fazem é mais radical ainda. Alguém inventa uma música, por exemplo, e diz: "-É minha, só pode ser reproduzida com minha autorização". Mas aí ficam as perguntas: se alguém cantar a música vai acabando aos poucos? Se um canta o outro não pode cantar? Não é óbvio que o conhecimento não é escasso? Por que limitar seu uso? A resposta é: interesses de mercado.
   A sociedade está diante do avanço do capital, não apenas geograficamente, mas também ideologicamente (talvez não seja o termo correto, mas, enfim). Tudo vira mercadoria e isso já foi previsto, e não através de bolas de cristal ou cartas de Nostradamus, mas sim da lógica. O capitalismo chegou ao limite de tornar escasso o que não é. Isso é limitar o infinito, a lógica sem lógica é sustentada pelo seu espetáculo de mentiras. A grande dama fantasiada com lantejoulas brilhantes e estonteantes é podre por dentro.


“O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social (...). A produção econômica moderna espalha, extensa e intensivamente, sua ditadura” (Debord, 1997, p. 31).