sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Seria bom desejar um feliz Natal

É tempo de esquecer os compromissos do dia-a-dia. A rotina que castiga a todos na maior parte do ano dá lugar à festa que todos aguardavam. Os festejos e bebedeiras aos finais de semana já não são suficientes, é tempo de ir às compras praticar o real motivo de toda existência.
Os tempos modernos são tempos de espetáculo. A filosofia de nossa época já não é filosofia, é a idolatria da ilusão. A ilusão é a rainha das mercadorias, ela seduz os homens  fazendo-os desgostar da realidade e plantando o desejo de iludirem-se cada vez mais. Os indivíduos iludidos baseiam sua vida numa eterna procura por absolutamente nada.
Nem sempre foi assim. A ilusão nem sempre foi tão admirada. Mas, isso não quer dizer que os indivíduos eram seres puramente racionais, mas significava que eles ao menos buscavam a racionalidade. O idólatra de qualquer entidade sobrenatural acreditava estar encontrando a realidade, apesar de não estar encontrando-a ,e a partir do momento que se convencesse de que a sua idolatria era pura ilusão certamente iria se livrar dela (isso não quer dizer que é tarefa fácil convencer alguém de que suas crenças são falsas). Nesse sentido, ele é mais racional do que o indivíduo moderno.
O indivíduo moderno - focando naquele que adota a cultura ocidental - é aquele que diz buscar a vida feliz. Para isso, trabalha triste na semana para sentir prazer na folga, triste no ano para ser feliz no Natal, triste na vida para viver de remédios na aposentadoria. E como ele acredita que pode ser feliz? Consumindo. Quando a felicidade não esta rotulada numa garrafa de 500 ml está embrulhada em papéis de presente.
É sob essa lógica que todo o ano no 25° dia do último mês os consumidores (é assim que são denominados os indivíduos hoje) vão às lojas sob o chamado do "bom velhinho". O "ho-ho-ho" é mais sedutor do que qualquer outra chamada publicitária.
A história contada aos mais jovens é a de que um senhor de barbas brancas e roupas vermelhas entrega aos "bons meninos(as)" do mundo todo merecidos presentes. Ele, o Papai Noel, tornou-se o principal personagem do Natal em detrimento daquele que sê-lo-ia até então. A festa perdeu praticamente todo o seu sentido original (teológico). Talvez, porque o aniversariante original não seria muito adequado para chamadas propagandísticas, visto o seu caráter nem um pouco comercial.
Aliás, mesmo que tente basear-se na justificativa de que o Natal ainda possui um sentido teológico, há outra armadilha implícita. O fato é que ninguém sabe a data do nascimento de Cristo (não há sequer indicações bíblicas), mas a história sabe que o festejo do Natal foi adotado em Roma mais de três séculos após esse evento, tudo isso devido a um decreto papal que visava conciliar uma data comemorativa tradicional romana (baseada em lendas pagãs) com o cristianismo que estava em ascensão.
É interessante notar que essa separação entre figura motivadora e sedutora é a materialização da aversão à realidade que nossa sociedade carrega. A grande maioria se apega mais à figura que ilude do que a que daria o sentido original à data.
A noite do Natal é o ápice do espetáculo consumista onde todos se curvam diante da ilusão. Ela é uma grande mercadoria que inunda todos os cantos, só que é uma mercadoria especial, pois foi adquirida coletivamente. Por isso, diz-se que é um momento de união. Na verdade parece ser um momento de conciliação da lógica capitalista com a natureza sociável e o desejo comunitário humano, sem momentos como este o sistema entraria em desgaste a ponto de extinguir-se. Os admiradores desta sociedade encontram nesse momento não só uma oportunidade para comercializar e adquirir, mas também para olharem em volta e imaginarem: - Como nossa sociedade é sensacional!
Após esse breve êxtase e sua breve prolongação até a virada do ano a sociedade reafirma o caráter ilusório do acontecimento: a aparente união se desfaz, é hora de voltar à vida comum onde a competição é lei. A mercadoria já foi vendida. Às máquinas, ano que vem tem mais! E endividados até a goela todos voltam para as suas vidas passivas.


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