Em algum momento da revolução industrial alguém muito astuto resolveu criar uma máquina que pudesse se movimentar sem nenhum tipo de força orgânica. A ideia do homem separado da natureza já andava a passos largos nesta época. Não haveria mais a necessidade de tração animal, como tudo naquela época e naqueles países que se industrializavam cada vez mais cheirava a vapor e a carvão queimado nada mais usual do que um motor a vapor em cima de algumas rodas.
Então esse trambolho sobre quatro rodas foi logo fazendo sucesso. Os magnatas da época e toda a burguesia já o desejavam ou o possuíam. Nada mais fantástico do que poder se locomover sem necessitar fazer esforço, e tudo isso, imaginavam, era fruto do tão aclamado "progresso".
As primeiras engenhocas apesar de não parecerem nada sedutoras tinham consigo algo que atraía o homem. Talvez esse algo seria o eterno desejo de não precisar se cansar para ir de um lugar ao outro, desejo esse que deve acompanhar os humanos desde as primeiras expedições nômades pelo mundo afora que contribuíram para que quadrúpedes de diversas raças fossem domesticados como animais de transporte. Porém, diferentemente dos animais, os primeiros automóveis eram um símbolo do "domínio humano sobre a natureza", a sociedade não necessitaria mais dos limites impostos pelo meio natural (como se a sociedade humana fosse algo separado do meio natural). Animais de carga que poderiam empacar no meio do caminho e gerar outros problemas não seriam mais necessários. Pelo menos esse deveria ser o pensamento romântico de alguns que viveram nessa época.
Henry Ford e sua política de produção possibilitou que homens da classe trabalhadora adquirissem seus desejados carros (claro que ele só fez isso pois visava obter mais lucro). Até então esse era mais um instrumento que diferenciava a burguesia dos outros setores, sendo mais uma ferramenta que era desejada por aqueles que não a possuíam. Mais do que ir de um local ao outro sem precisar andar, agora quem possuísse uma dessas máquinas possuía também algo que o colocava acima de quem não a possuía. Devido ao impulso desse sentimento, essas máquinas de quatro rodas foram ganhando cada vez mais espaço na vida do homem. Cidades foram moldadas para suportarem seu tráfego, países basearam seu "desenvolvimento" na indústria automobilística, guerras foram travadas influenciadas em parte pela disputa de seu combustível, e hoje é difícil imaginar um mundo sem esses símbolos da indústria.
O sujeito que tem uma máquina dessas demonstra poder de compra, e isso no momento é o que é considerado mais valoroso na nossa sociedade. Esse modo de pensar chega a tal ponto que no sonho de muitos está o desejo de ter um carro.
Mais uma vez, a ideologia de nossa época transformou o meio em fim. O veículo automotor que seria o meio para realizar outros desejos (o de transitar de um lugar ao outro facilmente) se tornou a própria finalidade. Ou seja, hoje a finalidade que muitos dão às suas vidas está em adquirir esse bem material (além de outros bens materiais, é claro).
Sabendo disso, a máquina da propaganda induziu a humanidade a adotar cada vez mais ardorosamente esse desejo. Como adquirir um automóvel passou a ser o objetivo da vida de muitos essas máquinas não poderiam mais serem rústicas "carroças à vapor". A estética se tornou mais um de seus atrativos. Foram criados modelos esportivos, utilitários, compactos, tudo isso sob o rótulo de se adequarem ao estilo de vida do "consumidor".
Neste vídeo fica explícito o caráter apelativo da publicidade, perceba que o personagem principal da propaganda tem como realização final de sua vida o adquirir um carro.
Todo esse desejo de possuir esse objeto que as massas passam a carregar traz consequências. Como já foi explanado, o carro antes era um meio para ir mais rapidamente de um local ao outro, hoje sua obtenção se tornou uma finalidade. Isso fica claro em algumas situações onde ele é pouco eficiente como meio de locomoção ao passo que a insistência em consumí-lo é grande. Por exemplo, o trânsito caótico de uma grande cidade.
Os famosos congestionamentos dão ao motorista horas e horas de estresse. Muitas vezes seria mais prático ir a pé para casa, ou utilizar o transporte público (se esse fosse de qualidade), quem sabe até ir de bicicleta, porém, incrivelmente e sem nenhum motivo aparente, a maioria ainda prefere estar no seu banco de carro ouvindo sua música e curtindo seu ar condicionado. Em meio a tanta falta de espaço o motorista preserva um enorme vácuo à sua volta. Num carro de quatro ou mais assentos muitos só tem ocupado o banco do motorista, tomando um espaço precioso em locais tão densamente povoados.
Comercial da Honda que prega a ilusão de vias sem outros carros, o que em muitos dos casos não será enfrentado. O individualismo sendo exaltado.
Com a ajuda da propaganda e do desejo existente nas pessoas de consumir, as grandes cidades se entopem cada vez mais com essas máquinas. Praticamente se encontram lojas de carro em cada esquina e isso não é exagero. Esse objeto de consumo molda a vida de muitos. O sonho de muitos dos jovens que atingem a idade exigida para dirigir é adquirir uma habilitação, e é claro, um automóvel.
Esse caráter estranho de nossa cultura, o velho sonho de ter (ter uma casa, ter uma família, ter um carro, ter um cachorro, um papagaio ou um periquito), é o que norteia muitos. Nesse ideário a vida se realiza no ter, não no ser ou no estar. Durante milênios pessoas buscaram viver para a religião, ou para a comunidade, algumas viveram para a guerra, outras pelo prazer, hoje a maioria vive para o ter.
Essa característica, está diretamente associada e pode ajudar a explicar o fato de tantas pessoas desejarem ter uma carro. Há uma tradição do possuir. E esta é influenciada antes mesmo dos indivíduos terem a capacidade de realizarem tal tipo de consumo. Desde a infância as crianças são entretidas com brinquedos que as estimulam a aderir a esse "costume". "Carrinhos", jogos eletrônicos etc., ajudam a desenvolver esse desejo. O jovem, ou adolescente, continua com esse mesmo desejo, porém, agora associado a outro desejo: o de futuramente ter uma família nos moldes tradicionais, ou pelo menos ter com quem satisfazer seus desejos sexuais. Isso pode parecer cômico mas não é, e fica explícito nas diversas propagandas que associam carros a mulheres.
Um dos muitos exemplos de publicidades que associam ter carros a ter mulheres...
Esse vídeo é a gravação de um dos muitos salões do automóvel que ocorreram. Observe, o que aparece ao lado de cada carro. Não seria uma mulher? Não vá achando que ela vem de brinde...
Assim, muitos ao completarem dezoito anos no Brasil e em outros países tem como prioridade a obtenção dos requisitos necessários para poder possuir um carro e ser mais um participante dos congestionamentos nas grandes cidades. Esse objetivo muitas vezes se equipara ou até mesmo supera na mente de alguns a necessidade de adquirir uma habitação, ou até de conhecer o mundo. Até que nossas pernas virem rodas...
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