quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Vamos fazer uma marchinha?

   O cenário é o Brasil. Um país em que impera uma lógica que torna a sétima economia do mundo umas das nações com menores índices de desenvolvimento humano: a lógica do lucro. Nesse país, 16,2 milhões sobrevivem com menos de 70 reais mensais, 50% das residências não possuem rede de esgoto, quase 10% da população é analfabeta. Tudo isso enquanto quase um terço da receita é destinada à engorda dos bolsos de alguns banqueiros.
   Em Brasília, nossos "representantes" mostram-se cada vez mais serem defensores árduos dessa lógica. Mas isso não é de hoje. Desde que o primeiro lusitano pisou em terras tupiniquins vivemos num território dominado pelo clientelismo. E por muito tempo as classes médias e ricas permaneceram indiferentes à isso. Porém, subitamente e estranhamente, surgiu uma moda de fazer passeatas contra a "corrupção", como se um modo de combater a desonestidade fosse fazer caminhadas no asfalto, pintando a cara de guache e gritando o famigerado bordão: "cansei!"
    É interessante observar o tipo de frequentador desse tipo de manifestação. Geralmente são pessoas com seus kits de caminhada, todas equipadas  e vestidas como se fossem passear em um parque ao fim de semana (é de se notar que essas marchas são realizadas nos feriados), a grande maioria carregando artigos eletrônicos modernos para registrar o ocorrido e postar a foto no "face" para todos os amiguinhos verem, além de alguns otavinhos que provavelmente foram criados a papinha de aveia e cereal batido com mamão no liquidificador, todos com o rostinho pintado de verde e amarelo.
     A organização dessas passeatas, se dá de um modo interessante. Os organizadores parecem querer fazer algo parecido com os grandes protestos que ocorreram no mundo árabe, e no leste europeu no século passado. Tanto que alguns órgãos da mídia tentam intitulá-las de "primavera". A diferença crucial é que as passeatas árabes utilizaram a web como meio para mobilizar milhões que estavam revoltados contra regimes opressores. Mas, nesses casos, a internet foi só um meio auxiliar (muito importante diga-se de passagem), e serviu para acender uma pavio que já havia sido encurtado há muito tempo. Já as "marchinhas" brasileiras, se mobilizam pela internet, se desenvolvem na internet com seus integrantes "tuitando" em tempo real em seus aparelhos eletrônicos de última geração, e terminam também na internet, com vídeos sendo postados no YouTube. Ou seja, não passam de pseudomovimentos sem propósito algum.
     Outra coisa interessante a ser observada  é o destaque que os meios de comunicação da vellha mídia brasileira dá a estes movimentos. Como contra-exemplo: há uma marcha que é organizada por trabalhadoras rurais brasileiras que se reúnem em Brasília para lutar pelos direitos do trabalhador rural, em homenagem a Margarida Maria Alves, sua antiga líder que foi assassinada por lutar contra a injustiça nos campos do Brasil. É a marcha das Margaridas, que esse ano reuniu mais de cem mil trabalhadoras rurais e foi uma marcha do povo brasileiro, dos que realmente necessitam. E a mídia nacional? Trata o evento como uma marchinha qualquer, além de tentar reduzí-la a uma interdição de vias na cidade com as vias mais largas do Brasil. Isso sem contar os inúmeros casos de desrespeito ao movimento dos sem-terra e dos sem-teto que lutam pelo que foi tomado do povo: a terra, além do tratamento que as greves dos trabalhadores brasileiros recebem da mídia corporativista.  Já uma marchina que reúne treze mil burguesinhos revoltados é tida  como movimento "social" legítimo.
    E assim segue o nosso país. O povo revoltado é tido como um bando de vândalos  que luta por causas "injustas"(basta ver o tipo de crítica que é feita aos movimentos sociais supracitados) , já a burguesia revoltada é "primavera". A atenção dos meios de comunicação é voltada para manifestações contra impostos e contra inimigos invisíveis, mas quando o povo bate de frente contra a lógica que é defendida pelos grandes monopólios midiáticos, quando este resolve fazer greves por exemplo, é transformado em vilão. Talvez no nosso país a verdadeira primavera só irá começar quando pararem de plantar flores de papel laminado e começarem a desabrochar as verdadeiras flores, como as margaridas.



E para você, o que é um exemplo de movimento popular? Este:



Ou esse:

?




Um comentário: