A partir do momento que chegamos ao mundo vindo das entranhas de nossas mães começamos a chorar, talvez devido à brusca mudança de realidade, saindo de um recanto escuro onde não há perigos nem grandes segredos para um mundo vasto e talvez assustador. Então, para saber onde estamos começamos a nos perguntar, inicialmente para nós mesmos, depois para os outros quando aprendemos a falar. Perguntamos quem são esses que estão nos protegendo, o que eles querem conosco, o que é o mundo, de onde viemos, para onde vamos, o que é aquilo, o que é isso, o que é. Muitas vezes obtemos respostas que satisfazem e procuramos outras perguntas, em outras não nos contentamos e procuramos responder com aquilo que pensamos. As respostas obtidas, mesmo que tenham sido aceitas, poderão futuramente ser questionadas e gerarem novas perguntas. Assim crescemos, envoltos num mar de dúvidas que cresce cada vez mais, e ao passo que procuramos responder novas questões obtemos novas perguntas.
Corremos o risco de nos afundarmos no mar que criamos. A pequena lagoa da infância vira um oceano vasto e cada nova dúvida que surge não provoca pequenas ondas como antes, mas sim grandes maremotos. Em meio a tanta turbulência, surgem dois tipos básicos de pessoas, que no caso são marujos, alguns que resolvem ancorar o barco próximo a alguma ilha de incertezas e estão sempre em busca de novas ilhas para atracarem suas embarcações permanecendo por pequenos períodos de bonança, outros motivam-se mais com o horizonte infindo e vão desbravar os mistérios desse vasto oceano, encontrando novos companheiros de viagem e aprimorando cada vez mais seus barcos para poderem participarem de aventuras cada vez mais motivadoras.
Os primeiros odeiam as oscilações do mar de perguntas e por isso estão sempre em busca da terra, pois acham que a terra é firme. Quando se deparam com alguma ilhota vão logo ancorando os barcos, seja ela coberta por florestas que possuem árvores com flores coloridas e atraentes, as árvores da ilusão, ou com cactos que não são tão sedutores, mas que trazem em seu interior substâncias que são saborosas, os principais ingredientes para a sopa da ortodoxia. Devido ao seu ódio pelo líquido turbulento, que é a dúvida, passam a querer habitar nas mais diminutas ilhas vivendo noites atormentadas sob o barulho do mar que parece querer engoli-las. De suas cabanas avistam o grandioso oceano e quando menos esperam um grande maremoto se aproxima engolindo a ilha levando embora todas as ilusões que a decoravam. Alguns ex-marujos sobrevivem agarrando-se em algum tronco que sobrou da floresta devastada até boiarem em direção a outra ilha e construírem novas embarcações para desbravarem o oceano, passando a odiar não mais as águas, mas, sim as ilhas. Outros são engolidos pelo grande oceano de questionamentos.
O segundo tipo é o de desbravadores dessas selvagens e oscilantes águas. As temporadas que passam em terra firme servem para aprimorarem suas naus, as naus da razão, e sua ansiedade para seguirem mar adentro é incontrolável. Em meio a tantas dúvidas, enfrentam tormentas e tufões, porém, saem ilesos e até mais experientes, isto quando a embarcação é suficientemente reforçada. Procuram se afastarem cada vez mais da terra indo de encontro aos mistérios do oceano de questionamentos, as tempestades que causam e enfrentam aumentam este que já parece sem fim, e fica cada vez maior e mais instigador ao passo que os marujos se atraem por ele. Como sabem que as diminutas ilhas da ilusão trazem um conforto momentâneo mas não são muito seguras, por experiência própria ou por ouvirem falar, não procuram-nas, preferem aprender a agirem de acordo com as águas rebeldes do pensamento, assim sabem que não correrão o risco de um dia acordarem em meio a uma inundação, pois já vivem no meio que é inundado procurando adaptarem-se a ele.
O segundo tipo faz o pensamento humano ser criativo ao traçar novas rotas por onde seguir, procurando algo que não sabe ao certo o que é, mas guiado sempre pelas velhas questões levantadas pela humanidade, como: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Essas questões são da mesma natureza das que são levantadas pelos jovens que procuram respostas dos mais experientes, e por isso devem ser inerentes à natureza humana. Já o primeiro tipo prefere se abrigar nas ilusões até que o próximo maremoto venha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário