sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Uma SOPA verdadeiramente amarga

   Na era do pão e circo é só faltar pão que lá vem a SOPA!
   Era uma vez um mundo onde todos viviam felizes. O progresso (em que direção?) trouxe felicidade a todos, as guerras acabaram, as prateleiras ficaram lotadas, e o calor das lareiras no frio e o frio do luar ao céu aberto no calor foram trocados pela televisão, todos tinham televisão. As famílias se divertiam, pois agora poderiam comprar tudo, afinal, o que não faltava era dinheiro, essa substância misteriosa que alguns dizem ter o incrível poder de movimentar o mundo, poder que antes era atribuído aos seres mitológicos. Essa criatura fantasmagórica e poderosa encarnada em papel ficou tão forte que passou a ser necessária para adquirir não apenas bens palpáveis, mas também ideias, pensamentos, cultura.
   Então, não demorou muito para surgir uma coisa chamada indústria cultural. As cantigas cantadas em rodas com as pessoas mais próximas foram substituídas por produções embaladas que só podiam ser compartilhadas por quem fosse autorizado. A cantiga que é utilizada para comemorar aniversário chamada "Happy birthday to you" já tem seus direitos autorais garantidos através da copyright, e assim seguia o mundo. Os homens da sagrada família, guiados pelo sagrado trabalho, ganhando o sagrado dinheiro, vivendo sagradamente numa terra sagrada. E os homens sagrados (os "homens de bem"), aqueles que deixam o mundo nas mãos da sagrada "mão invisível", produziam cada vez mais sagrado dinheiro ficando cada vez mais sagrados e enchendo o público de espetáculos sagrados vindos de uma entidade santa chamada mídia. Esses homens de "benz", donos dos direitos de propriedade sagrada, os donos do pedaço, privatizaram tudo, sagradamente, e passaram a vender os direitos sagrados do espetáculo sagrado.
   E nesse mundo purificado e límpido eis que surge a INTERNET. Essa entidade, fruto da sagrada guerra travada em nome da sagrada nação do destino manifesto, foi posta ao uso da sociedade civil. Grandes monopólios de tecnologia lucraram uma bolada vendendo os utensílios necessários para poder interagir nessa rede. Entretanto, com o tempo foi percebido que essa entidade ainda não era loteada e não havia nenhuma bandeira com o monopólio legítimo da força nela, afinal, ainda não haviam inventado as bombardas virtuais. Com isso, os primeiros desbravadores eram pessoas comuns, mas, com certa aptidão para desbravar o campo virtual. Os hackers, hoje demonizados pela sagrada mídia, literalmente inventaram a INTERNET.
   Assim, surgiu um local onde governos e corporações não tinham total controle. Com mais pessoas acessando a rede mundial de computadores, mais informação era compartilhada livremente e gratuitamente. Tudo isso preocupou a sagrada indústria cultural, pois, se o seu ganha pão estava sendo compartilhado de graça como poderia continuar lucrando?
   Não tardou muito até inventarem uma fórmula mágica: uma SOPA realmente amarga. Está prestes a ser servida a todos, dizem que é adocicada para quem faz parte da sagrada indústria cultural e amarga para os maléficos piratas da internet.
   Neste mundo as coisas ficam cada vez mais obscuras. Um dia, como disse Rousseau, alguém resolveu cercar um lote de terra e dizer: "-É meu". Assim foi iniciada a propriedade privada. Os lotes de terra são limitados, se um tem o outro não tem. Hoje, o que fazem é mais radical ainda. Alguém inventa uma música, por exemplo, e diz: "-É minha, só pode ser reproduzida com minha autorização". Mas aí ficam as perguntas: se alguém cantar a música vai acabando aos poucos? Se um canta o outro não pode cantar? Não é óbvio que o conhecimento não é escasso? Por que limitar seu uso? A resposta é: interesses de mercado.
   A sociedade está diante do avanço do capital, não apenas geograficamente, mas também ideologicamente (talvez não seja o termo correto, mas, enfim). Tudo vira mercadoria e isso já foi previsto, e não através de bolas de cristal ou cartas de Nostradamus, mas sim da lógica. O capitalismo chegou ao limite de tornar escasso o que não é. Isso é limitar o infinito, a lógica sem lógica é sustentada pelo seu espetáculo de mentiras. A grande dama fantasiada com lantejoulas brilhantes e estonteantes é podre por dentro.


“O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social (...). A produção econômica moderna espalha, extensa e intensivamente, sua ditadura” (Debord, 1997, p. 31).


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