sexta-feira, 15 de julho de 2011

Não basta ter? É preciso ser?

   Você sabe o que é caviar? A ova de um peixe, o esturjão. Essa iguaria tão "apreciada" é de difícil obtenção, tornando assim seu preço inacessível para a maioria, além do fato de não constituir grande recurso alimentar para uma população de tamanho razoável (considerando só a ova, sem o resto do corpo do peixe). Por ser rara e cobiçada, possui também um preço "salgado" .
Saiba mais:

   Por possuir altos custos, é dificilmente consumida por pessoas que vivem em condições "modestas". Dessa forma, torna-se um símbolo de consumo das classes mais abastadas, constituindo um diferencial entre estes e os que não tem. Quem come caviar, poderia muito bem se alimentar de qualquer outra coisa que considerasse mais apetitosa, ou da própria carne do esturjão. Mas, esse alimento é mais do que um meio de se manter vivo, é um símbolo de condição socioeconômica superior (vulgo status).
   De onde vem esse desejo pelo "status" tão visível? Simples. O rico sente o dever de mostrar não ser pobre. O poder econômico neste caso, é muito mais que um meio de obter satisfações pessoais mundanas, passa a ser uma forma de garantir uma sensação de superioridade relativa. Relativa, pois esse fenômeno só é possível quando existem pessoas interagindo. Facilmente se conclui que uma pessoa sozinha em qualquer região do globo não poderia se ostentar. O caviar não é caro por ser especial, mas sim porque os humanos atribuem esse valor alto a ele.

   Esse é só um exemplo. Em qualquer sociedade estratificada se observam diferenças entre as classes possuidoras ou não do poder, e isto vai desde às condições materiais até às psicológicas. A condição material mais favorável dos possuidores da riqueza não basta para que estes se contentem, pois sentem a necessidade de  parecerem diferentes - dos próprios pontos de vista e dos daqueles que os cercam - daqueles que não possuem esses bens, assim adquirem hábitos de vida singulares, alguns compreensíveis e outros inusitados, tudo isso por acreditarem poder serem superiores, diferentes. Esquecem-se que no fim de suas vidas, se forem enterrados, os vermes e outros seres necrófagos, não vão escolher qual defunto digerir olhando a conta bancária ou seus hábitos de vida.
    Essa dissemelhança entre os hábitos dos indivíduos não ocorre só entre os extremamente ricos e os extremamente pobres, ocorre também entre as classes que não estão tão longe umas das outras. Para exemplificar isto, é necessário ter a ideia de que o ser que se considera superior, não só adquire hábitos singulares como também tende a abandonar costumes que passam a ser praticados pelas classes sociais ao qual julga serem inferiores. Basta observar o fenômeno das redes sociais. Recentemente, há uma migração do Orkut para o Facebook. Isto, pode ter sido impulsionado por fatores práticos, como a melhor dinâmica de um ou de outro etc. Porém, o fenômeno ganhou um caráter de separação entre extratos sociais. Para o aburguesado que utiliza o Facebook (não são só aburguesados que utilizam-no), este site é muito mais agradável pois o mantém longe dos que ele considera inferiores, ou seja, os que ele denomina como "favelados", "pobres", os usuários do Orkut, o mesmo sítio que utilizou no passado. Frequentemente, acham-se pessoas dizendo: "maldita inclusão digital". Por ser essa inclusão "maldita", cria-se o que por ação dessas pessoas (que julgam serem de mente superior por assistirem CQC, vlogueiros pseudo-críticos do you tube, novelas globais e assim acreditam conhecer a realidade política e social do país), a exclusão digital, que é um fenômeno aparentemente permanente (sempre está se renovando), pois os sítios da rede mundial de computadores, em geral, não exigem comprovante de renda e de residência para efetivar os cadastros. Os usuários do Orkut que ainda não aderiram à moda Facebook, em breve embarcarão no cruzeiro social do Mark num sei das quantas, e para "a galera do face" não dividir os quartos e banheiros com essa "gente diferenciada", logo surgirão novos transWebs para reestabelecer o muro virtual entre as classes. Sem falar no Twitter, uma rede que é utilizada tanto para a organização de manifestações sociais ao redor do globo, como espaço onde os ditos "famosos" se divertem trocando ofensas e gerando mais lixo informacional para os nossos fofoqueiros da imprensa. Por funcionar ainda com o idioma inglês, os que não estão familiarizados com esta língua ainda evitam-no, e por isso muitos dos aburguesados utilizam-no como "refúgio".
   Uma análise crítica, mas superficial como esta pode não ser tão convincente, mas a preguiça de pensar do autor não permite ir mais além. A conclusão será com uma breve reflexão do nosso filósofo popular, Zeca Pagodinho.
                                                                                                                                                       

 
"Caviar  
Zeca Pagodinho
Você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar
Mas você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar

Caviar é comida de rico curioso fico, só sei que se come
Na mesa de poucos fartura adoidado
Mas se olha pro lado depara com a fome
Sou mais ovo frito, farofa e torresmo
Pois na minha casa é o que mais se consome
Por isso, se alguém vier me perguntar
O que é caviar, só conheço de nome

Você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar
Mas você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar

Geralmente quem come esse prato tem bala na agulha
Não é qualquer um
Quem sou eu pra tirar essa chinfra
Se vivo na vala pescando muçum
Mesmo assim não reclamo da vida
Apesar de sofrida, consigo levar
Um dia eu acerto numa loteria
E dessa iguaria até posso provar

Você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar
Mas você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar


2 comentários:

  1. OOOOOOOOOOOOOOOOOOO
    O CERU MANU VOLTOOOOOOOOOOOOOOO

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  2. Vi a referência a seu blog no Contexto Livre e vim aqui. Gostei - e já sou seguidor.
    Quando possível, visite o meu blog http://domacedo.blogspot.com/.
    Um abraço,

    Dodó Macedo.

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